Quando a dor é deles, mas atravessa a gente: a maternidade entre o cuidado e a vulnerabilidade

Há 14 anos a maternidade ocupa um espaço profundo na minha vida; ela atravessa meu olhar, minhas decisões e a minha forma de cuidar. Sou pediatra , mas o verdadeiro ponto de transformação da minha história, porém, aconteceu ao me tornar mãe. Foi nesse encontro diário com o cuidar que passei a compreender, na pele, os desafios que vivemos quando nossos filhos sentem dor, seja ela física ou emocional.

Ver um filho adoecer desmorona qualquer escudo, inclusive o do diploma médico. A febre no meio da madrugada, o choro aflito ou o silêncio de um desconforto nos atingem em cheio. Lembro da bronquiolite do meu filho, aos 8 meses, e depois da mão-pé-boca, quando ele tinha 1 ano e 4 meses e havia acabado de entrar na escolinha — dois episódios ( entre muitas viroses) que me fizeram sentir, mesmo sabendo cada protocolo de cor, que nenhum conhecimento técnico amortece o aperto de ver o próprio filho sofrer.

A dor é deles, mas o aperto sufocante é no nosso peito.

A minha vulnerabilidade materna mora exatamente nessa constatação: por mais que saiba o protocolo clínico e o remédio exato,eu tb queria tirar a dor com as mãos e sofrer no lugar dele. Guardo até hoje a lembrança do corte na cabeça dele após uma queda( que eu não vi acontecer) — eu tinha certeza, “absoluta”, que não precisaria de pontos. Levou cinco. Foi um dos primeiros momentos em que percebi que, diante do meu próprio filho, meu julgamento clínico e meu coração de mãe nem sempre concordam.

O tempo passa, os filhos crescem e o formato dessa dor se transforma. Meu filho vai completar 14 anos este mês, e acompanhar sua jornada até a adolescência é descobrir que as feridas deixam de ser apenas os joelhos ralados — ou, no nosso caso, aquela lesão no tornozelo durante uma aula de basquete, que ainda doía em mim mesmo depois de curada nele. As frustrações, os medos, os desafios sociais e as tristezas emocionais dele também me atravessam com a mesma intensidade daquelas primeiras cólicas. Hoje as questões são outras — aceitação, autoestima, amizades, os primeiros sentimentos românticos — e reconheço que exigem de mim uma coragem diferente daquela dos prontos-socorros: não a de agir rápido, mas a de ficar ao lado dele em silêncio, respeitando um tempo que não é o meu. Sentir a dor do crescimento de um filho exige uma coragem imensa. Ficar ao lado dele, oferecendo suporte enquanto ele enfrenta os próprios conflitos, é um exercício diário de lidar com a nossa própria impotência diante da vida do outro.

Essa vivência dupla — como mãe e médica — muda completamente a forma de enxergar a pediatria.

Receber uma família no consultório hoje é entender que, por trás da queixa clínica de uma criança, existe um adulto extremamente vulnerável e angustiado. O coração de quem cuida sempre dói junto. Orientar com o rigor da ciência é o meu dever, mas acolher essa aflição com a empatia de quem também já jurou de pé junto que não precisaria de ponto, e se enganou, é o que torna o cuidado real e humano.

Aceitar que a dor deles nos afeta profundamente é o que nos conecta. Dividir essa carga, confiar na rede de apoio e entender que sentir medo faz parte do processo materno alivia o peso dessa jornada. O cuidado mais potente que podemos oferecer aos nossos filhos nasce justamente da nossa capacidade de aceitar essa vulnerabilidade e, ainda assim, sermos o porto seguro mais firme que eles têm.

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